Resenha: Nós

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Tive a oportunidade de ler Nós do escritor russo, Ievguêni Zamiátin, com edição da Editora Aleph, que diga-se de passagem está maravilhosa. Este clássico da ficção cientifica e também da distopia, acabou originando outros tantos livros, assim como 1984 do George Orwell e Admirável Mundo Novo (ainda não tive a oportunidade de ler ele).

Livro: Nós Foto de @DehFlowers

Gostaria de fazer algumas considerações do livro antes de contar um pouco da história para vocês e sobre o seu tema. Acredito que como uma primeira distopia ele não vai funcionar muito bem, a história é um pouco arrastada já que o leitor fica preso ao pensamentos do D-503 que é o personagem que nos narra a história. Vamos descobrindo como é o mundo em que ele vive, quais são as limitações impostas pelo Estado Único a partir das suas anotações em uma espécie de diário, e em algumas partes destas anotações temos alguns diálogos. A grande verdade é que não da para se sentir conectado ao personagem porque este tipo de narrativa é mais o que ele quer mostrar para nós, do que a própria ”experiência” de estar vivendo o momento.

Se um comparativo com 1984 me for permitido fazer, eu acredito que ele nos fornece uma forma mais fácil de ficar imerso ao mundo, as dores e as limitações que cada personagem passa. Acredito também que ler o livro de George Orwell primeiro, faz a gente criar conexões com o Nós e algumas coisas que o D-503 deixa subentendido, acaba ficando mais evidente se assim podemos dizer, por já ter tido com outro livro deste gênero.

Livro: Nós Foto de @DehFlowers

Assim como em qualquer distopia, a história nos trás para um mundo controlado por um Estado Único, que tem total controle sobre a vida das pessoas, nos seus hábitos do seu dia-a-dia e também nas decisões que elas tomam em relação ao sexo, no entanto ter um parceiro fixo não é uma exigência nesta história, neste quesito as pessoas são ”livres” para se encontrarem e manterem relações sexuais com quem elas quiserem, no entanto há alguns dias na semana, para controlar os seus encontros.

D-503 é um engenheiro que muito se orgulha da sociedade onde vive e também é um defensor dela. O seu trabalho principal é trabalhar na construção de uma nave chamada Integral, que busca levar os humanos para povoar outros planetas.

Em suas anotações o engenheiro nos conta um pouco do que seria a nossa sociedade, fala como nós tivemos oportunidade de ser bem melhores, no entanto os nossos governantes não tinham ”braço” suficiente para nos conduzir para o caminho certo e como a Guerra dos 200 anos acabou dizimando o antigo mundo e dando origem a este estado único.

Sem dúvidas, isto não é parecido com as eleições confusas e desorganizadas dos antigos, quando – é engraçado dizer – o resultado das eleições sequer era conhecido de antemão. Construir um governo sobre causalidade inteiramente incalculáveis, as cegas as cegas – o que pode ser mais sem sentido? E ainda assim foram necessários séculos para se entender isso.

O livro cita em diversos lugares a nossa religião e a mania de se acreditar em um Deus que controla tudo, faz criticas as nossas formas de pensar e agir e de certa forma despreza a filosofia, mostrando como a matemática e o raciocino lógico são bem mais eficazes.

A julgar pelas descrições que chegaram até nós, na época dos antigos eles experimentavam algo semelhante em suas ”missas”. Mas serviam a um Deus absoluto e desconhecido, ao passo que nós servimos a um Deus plausível e cuja a imagem é precisamente conhecida; o Deus deles não lhes deu nada além de uma busca eterna e torturante; o Deus deles não imaginou nada mais inteligente do que oferecer-se em um sacrifício, sem saber por quê; nós nos sacrificamos a Deus, ao Estado Único, em memória aos dias e anos difíceis da Guerra dos Duzentos Anos, uma grandiosa celebração da vitória de todos sobre um, da soma sobre a unidade…

As pessoas vivem em apartamentos de vidro onde todos podem ver o que os outros fazem, mas no dia em que a pessoa recebe um acompanhante, ela pode fechar a cortina para ter privacidade, porém isso acontece em um curto espaço de tempo. A liberdade para está sociedade é um sinônimo de desorganização.

A vida parece ser bem chata, conforme ele vai nos contando, um mundo muito apático, sem cor, sem nenhum divertimento. D-503 por várias vezes chama a nossa atenção para fatos que ele viveu ou presenciou, falando –” caro leitor deste manuscrito”, entre outras coisas. Ele também deixa claro que não está omitindo nada em suas anotações e que aquilo tudo ele atesta que viveu, mesmo que as vezes ele fique um pouco confuso quando a sua vida começa a mudar.

As coisas ficam um pouco mais confusas quando ele conhece I-330, uma mulher misteriosa, com ideias revolucionarias e ações diretamente proibidas pelo partido controlador, como fumar e beber, mas de qualquer forma ela faz e ele vai se sentido envolvido por ela, mas na verdade o que vemos é a forma controladora como ela age com ele e por vezes nos deparamos com ele quase a beira da loucura. Sua vontade por várias vezes é entregar ela para o Estado Único e fazer com que ela pague por suas ações, mas ele não consegue é como se existisse uma força maior.

A pena para as pessoas que traem o partido é a decapitação, no entanto eles conseguem um método de tortura eficaz que fazer a pessoa ”melhorar” e entregar todos aqueles que agiram junto com ela, a barbara tortura acontece por meio de choques na cabeça.

Sobre a edição

No final da narrativa temos uma resenha de George Orwell e alguns conflitos ficam mais bem resolvidos na nossa cabeça após a leitura desta. Também temos uma carta de Zamiátin para Stálin pedindo para que ele pudesse sair do país já que estava sofrendo perseguição com as suas obras, que não podiam ser publicadas e suas peças que também não podiam ser executadas, por mais que algumas obras dele não contestassem a época e nem o governo.

A tradução ficou ótima e eu acabei comparando ela com outras disponíveis no mercado e estas eram bem mais truncadas, com está edição da Aleph temos a sensação de estar lendo um livro atual, sem muitos problemas com a construção da linguagem, a única dificuldade mesmo, como citei no começo é se sentir imerso ao mundo que está sendo apresentado. Se eu pudesse deixaria várias citações do livro aqui, mas eu recomendo a leitura e que vocês construam as suas próprias visões de mundo e marquem o que acreditarem que for relevante, mas para mim os trechos com maior destaque foram os que mostravam o comparativo do nosso mundo com o do personagem principal.

 

Título: Nós
Autor: Ievguêni Zamiátin 
Tradutor: Gabriela Soares
Editora: א Aleph
Edição: 1ª – 2017 BR
ISBN-13: 9788576573111
ISBN-10: 8576573113
Adicione: Skoob  Goodreads
Especificações: 344 páginas

Compre: Nós

Débora Santos Almeida

Autora de textos sobre automobilismo em especial sobre Fórmula 1, leitora voraz de livros de ficção científica, amante de Arthur C. Clarke e freqüentadora do restaurante do Douglas Adams!

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